Quando viro meus olhos para dentro,istantaneamente um mundo gira e um outro para.
Esse que gira é bem colorido,bem mais vivido,pois há vida.Há o calor dos corpos,o sorriso fraterno,gentileza,apreço,carinho.Esse que para é o mundo constante,do qual eu faço parte,no qual as coisas existem por concreto.Esse é mesmo todo feito de pedra,sorriso de pedra,cumprimento de pedra,desejo de pedra,sentimento de pedra é petrificado.
No que gira,as lágrimas correm soltas em forma de poema,há o cuidado,o importar-se,o esquecer-se de si para lembrar de outro.Todos somos filhos de todos.
No de pedra tudo passa,passa... Passa diante de nossos olhos.Tudo nos escapa,nada,enfim,é nosso.Enquanto que naquele que gira no decorrer de algo sublime ele para,estouram-se os fogos de artifício,o olho fotografa e o corpo escreve cada detalhe.
Pedras,caminhamos por entre pedras,uma vez ou outra por cima de córregos de dor.Tudo é sujo,a linguagem é suja mal se vê.O que é sublime passa,escorrega.As pedras riscam nossa face,desenham em nossa face: lábios para baixo,sobrancelhas comprimidas e caídas,corpo mole,pensamento que não se prende e raramente em momentos de distração,faiscas que nos despertam,nos provocam para algo novo.
Já no momento em que me encontro no mundo giratório,meus olhos brilham,meu coração arde,é o império dos sentidos,é o silêncio,é o som,o gosto,o desvendar, o não mistério,o explicito.E meu coração arde,arde boquiaberto.
Ah,Platão que sempre esteve certo,existem sim um outro lugar que não é aqui.O aqui é uma sombra,o aqui é um espectro,no fundo nada.
Esse lá é que é verdadeiro,que é completo,que é original.Onde predomina o império do bem em uma hierarquia de valores justos.Esse lá me encanta e sempre que posso viajo para lá,para lá,lá e me perco,e passo a vagar,completo,e passo a fazer poema,de pura grandeza.E lá,por fim,é o perfeito,onde até o desastre é justo,proposital,um conector.
E o que falar de mim?Posso falar que meus ossos,órgãos,veias,são como celas para algo que reside em algum lugar dentro de mim,onde não se pode chegar,não há mapa,na verdade não há nem o caminho.Algo que me conecta a esse mundo giratório.E talvez,um dia,quando essa coisa se soltar,de vez,eternamente,eu vá para lá,lá,lá... Onde tudo é arte.LÁ.